ACORDAR ÀS 6 HORAS DA MANHÃ É A ÚNICA MANEIRA?
“Quantas vezes na vida eu consegui planejar um dia e executar ele completamente como o desejado?“
Eu procurava a resposta pra essa
pergunta enquanto olhava para a tela da TV, na qual, passivamente, jogava The
Sims. Observava o meu avatar chamado Lisa, acordar, se arrumar, ir pro emprego,
voltar, se aprimorar em algum âmbito profissional estudando muito, cuidar da
sua higiene diária, conversar com algum amigo para “manter a amizade em dia” e
depois, dormir para começar esse ciclo de novo no dia seguinte. Depois de algum
tempo jogando esse ciclo, não conseguia notar mais nada além da sátira que o
jogo se propunha a ser das nossas aspirações de vida. E todo aquele absurdo do
cotidiano corrido e lotado, não parecia tão estranho na minha cabeça porque era,
simplesmente, o dia perfeito para minha concepção de produtividade. E de certa
forma, exemplifica como a sociedade espera que nossos dias sejam: Um eterno
“apenas faça”.
Logo no começo da criação de um
Sims, decidimos qual vai ser o sonho da vida dele, no caso da Lisa, era chegar
ao topo de uma carreira científica. Claro que isso é um artifício de
jogabilidade para que tenhamos um “desafio maior” a ser cumprido no jogo e também
agradar os jogadores mais interessados em experiências guiadas. Mas isso me fez
pensar sobre quantas vezes o sonho da minha vida mudou, quantas vezes, na
verdade, eu não tinha mais um sonho, quantas vezes o sonho parecia meio
nebuloso e embaçado para se distinguir e quantas vezes eu questionei meu sonho
e por consequência, a minha existência por conta dele. E nesse momento, percebi
que questionar é uma mecânica que The Sims nunca conseguiu implementar de forma
satisfatória, uma mecânica que eu comecei a sentir falta nesse momento em que
percebi que ela não estava lá. E talvez nunca tenha sido o foco do Will Wright
fazer com que seu jogo simulasse todas as duvidas da vida, mas é que me
mostrando essa estrutura, ele explicitou que eu estava conivente com o que é
cobrado de mim como uma vida produtiva, porque toda aquela estrutura, não parecia
tão absurda assim aos meus olhos. Uma rotina sem um momento de desânimo sobre
continuar no trabalho, sem um questionamento interno se eu deveria realmente me
relacionar com tal pessoa, sem uma pausa pra dizer foda-se e mudar o ritmo das
coisas, institivamente essa ainda era minha visão de um dia bom.
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| A caos é uma consequência prazerosa que você quer encontrar para sair da rotina pesada. |
Claro que certas mecânicas de
humor e personalidade tentam borrar essa linha da rotina imutável e previsível,
mas tudo isso não faz diferença quando o próprio sims tem todas as informações
sobre ele mesmo, disponíveis como se todo ser humano adulto soubesse os seus
limites e características. Porque autoconhecimento, arrisco dizer, é a busca
mais infinita que o ser humano vai ter na vida, claro que logo atrás de
questões como: “Onde eu deixei minhas chaves?” e “Será que o ônibus demora?”. Então,
controlar um sims com toda a sabedoria sobre si próprio me lembrou o quanto eu
não sei nada sobre eu mesmo, e o quanto que saber tudo, significa também, estar
estagnado. Pois analisando a vida do meu avatar no jogo, a Lisa, percebi que
ela era a mesma sims de quanto eu comecei a jogar, e o que foi mudando, na
verdade, foram os seus arredores. Talvez isso tenha uma influência de como
Hollywood e a literatura me construiu a ideia que todo personagem deve ter uma jornada,
aprender com ela, e conforme seguimos essa jornada, vamos mudando, mas ver a
Lisa lá, com as mesmas ideias de sempre, com as mesmas vontades de sempre, fez
com que eu me distanciasse dela e perdesse a vontade de interagir com ela.
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| Ficar triste é quase uma decisão lógica no jogo. Uma penalidade por não se portar como a vida exige, e não o contrário. |
Sabe a Lisa? Ela nunca se
questionou sobre a sua carreira científica, nunca ficou sem o desejo de fazer
piadas sacanas, muito menos deixar de comer aquela macarronada todos os dias,
quiçá, pensar se aquele relacionamento amoroso que ela traz desde a
adolescência, ainda era algo que ela queira. Mas eu admirava a felicidade de
Lisa em viver feliz sem questionar nada, porém, identificava nesse estilo de
vida, uma ideia que ouço desde criança sobre crescer, de que devemos saber o
mais rápido possível o que queremos. E uma vez que identificamos o que
queremos, a vida deve seguir um só rumo, como um belo roteiro bem escrito que
tende a ter todas as pontas amarradas no final, sem espaço para sentirmos a
agonia de querermos mudarmos de direção, a vontade de desistir ou a coragem
para mudar a receita desse bolo chamado existência. Eu não pensei que
aconteceria, mas eu parei de me identificar com as Lisas que eu criava no The
Sims, talvez eu finalmente tenha conseguido achar a escada para sair dessa
piscina antes que eu morresse afogado, talvez eu tenha conseguido apagar algum
incêndio que alguém colocou na minha cabeça, ou talvez eu só esteja me
trancando dentre quatro paredes sem nenhuma porta pra sair, o importante é que
estou com fome agora e gostaria que alguma força maior clicasse e me desse
energia e boa vontade para eu preparar alguma coisa.


